{"id":1100,"date":"2025-05-06T15:33:05","date_gmt":"2025-05-06T15:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/?p=1100"},"modified":"2025-10-13T10:37:17","modified_gmt":"2025-10-13T10:37:17","slug":"1100","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/2025\/05\/06\/1100\/","title":{"rendered":"Migrantes e Sa\u00fade Mental"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MIGRA\u00c7\u00d5ES E SA\u00daDE MENTAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma realidade frequente nos dias atuais. Por raz\u00f5es diferentes muitas pessoas no mundo deixam os seus pa\u00edses de origem para residirem noutros pa\u00edses. J\u00e1 est\u00e3o identificados no presente v\u00e1rios fatores determinantes da sa\u00fade mental nessas circunst\u00e2ncias. Nunca, como no presente existiram tantas pessoas deslocadas no mundo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1102\" width=\"253\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image.jpeg 480w, https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 253px) 100vw, 253px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Alguns deslocam-se por op\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, outros, por\u00e9m, s\u00e3o compelidos a deixar os seus pa\u00edses de origem dadas as dificuldades e os obst\u00e1culos (alguns insuper\u00e1veis) que encontram no seu quotidiano.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, concordaremos que nas duas circunst\u00e2ncias <strong>as mudan\u00e7as associadas s\u00e3o efetivas <\/strong>(as evid\u00eancias t\u00eam-no demonstrado) constatando-se que, <strong>dada a sua conflu\u00eancia num determinado per\u00edodo da vida da pessoa, esta confronta-se com v\u00e1rias exig\u00eancias inerentes ao impacto das mesmas, quer a n\u00edvel individual quer nas comunidades \u00e0s quais chegam. <\/strong>Esta etapa perspetiva-se como um <strong>per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o<\/strong> no qual a pessoa encontra-se mais suscet\u00edvel quer ao n\u00edvel da respetiva sa\u00fade quer da sua adapta\u00e7\u00e3o a novas circunst\u00e2ncias, o qual pode ser gerador de oportunidades e desafios, mas, em paralelo, de constrangimentos e riscos elevados.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaca-se a rela\u00e7\u00e3o pessoa-ambiente como influente na sa\u00fade mental, sendo necess\u00e1rio considerar-se a complexidade da mesma, derivada das m\u00faltiplas dimens\u00f5es e vari\u00e1veis bio, psico, s\u00f3cio, culturais, espirituais e ambientais envolvidas. \u00c9 importante que todos os profissionais, mormente os que se encontram na linha da frente no atendimento \u00e0s pessoas migrantes, nas diversas organiza\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os, estejam preparados para realizar-lhes <strong>o acolhimento<\/strong>, frequentemente em situa\u00e7\u00f5es de <strong>vulnerabilidade acrescida<\/strong>, <strong>compreendendo-as com as suas singularidades, informando-as com clareza e promovendo tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o e o suporte necess\u00e1rios, face \u00e0s necessidades identificadas e \u00e0s respostas poss\u00edveis no pa\u00eds<\/strong>. <strong>Os referidos profissionais precisam ter a forma\u00e7\u00e3o apropriada n\u00e3o apenas do ponto de vista t\u00e9cnico, mas tamb\u00e9m, devem ter desenvolvido a sensibilidade e a compet\u00eancia transcultural, t\u00e3o importantes para o reconhecimento das idiossincrasias culturais e individuais.<\/strong> Ponto essencial \u00e9 que <strong>atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o se viabilize o entendimento entre os profissionais e os clientes migrantes, a fim de serem satisfeitas as necessidades essenciais presentes, num ambiente amistoso e de respeito m\u00fatuo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seguidamente ser\u00e3o referenciadas <strong>algumas vari\u00e1veis<\/strong> (n\u00e3o exclusivas de outras poss\u00edveis) <strong>com influ\u00eancia na sa\u00fade mental<\/strong> que dever\u00e3o ser ponderadas aquando do acesso e no acolhimento de pessoas migrantes pelos profissionais da equipa de sa\u00fade\/ sa\u00fade mental:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Cariz volunt\u00e1rio ou involunt\u00e1rio da migra\u00e7\u00e3o<\/li>\n\n\n\n<li>Prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via ou n\u00e3o da chegada ao pa\u00eds de destino<\/li>\n\n\n\n<li>Cariz tempor\u00e1rio, incerto ou definitivo da migra\u00e7\u00e3o<\/li>\n\n\n\n<li>Raz\u00f5es que levaram \u00e0 sa\u00edda do pa\u00eds de origem e significados atribu\u00eddos \u00e0s mesmas<\/li>\n\n\n\n<li>Condi\u00e7\u00f5es ambientais no pa\u00eds recetor<\/li>\n\n\n\n<li>Condi\u00e7\u00f5es afetivas e emocionais da pessoa migrante<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1dio de desenvolvimento vital<\/li>\n\n\n\n<li>Condi\u00e7\u00e3o geral de sa\u00fade e de sa\u00fade mental<\/li>\n\n\n\n<li>Condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e de satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas<\/li>\n\n\n\n<li>Exist\u00eancia ou n\u00e3o de v\u00ednculos afetivos e culturais pr\u00e9vios e depois da chegada<\/li>\n\n\n\n<li>Dom\u00ednio ou n\u00e3o do idioma ou possibilidade ou n\u00e3o de alternativas que possibilitem a comunica\u00e7\u00e3o e as intera\u00e7\u00f5es<\/li>\n\n\n\n<li>Disponibilidade e acesso a suportes sociais e na \u00e1rea da sa\u00fade e da sa\u00fade mental<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 <strong>preserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental<\/strong> existem quest\u00f5es fundamentais que se colocam. \u00c9 importante providenciar os recursos e os meios que permitam <strong>um trabalho estruturante\/ reestruturante<\/strong> n\u00e3o apenas a n\u00edvel f\u00edsico, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel psicol\u00f3gico, social e espiritual. <strong>O processo de readapta\u00e7\u00e3o pessoal bem como o de acultura\u00e7\u00e3o a uma nova realidade levam algum tempo e nem sempre acontecem da melhor maneira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Preservar ou recuperar o equil\u00edbrio din\u00e2mico para viver integrado numa outra cultura implica com alguma frequ\u00eancia sofrimento associado \u00e0 perda de refer\u00eancias s\u00f3cio culturais e afetivas muito significativas (ainda que tempor\u00e1rias) antes de interiorizar e integrar outras novas e diferentes. Certamente \u00e9 preciso reaprender a existir, sobreviver, mantendo a identidade pr\u00f3pria e a coer\u00eancia interna, nomeadamente a n\u00edvel ps\u00edquico, apesar do lugar e das realidades que mudaram.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1103\" width=\"304\" height=\"228\" srcset=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1.png 567w, https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No <strong>suporte \u00e0 sa\u00fade mental das pessoas migrantes<\/strong> considera-se de suma relev\u00e2ncia a disponibilidade e o acesso a respostas sens\u00edveis e culturalmente competentes por parte dos diferentes elementos da equipa de sa\u00fade e de sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <strong>preserva\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio mental salientam-se tr\u00eas eixos primordiais<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>o trabalho sobre as rela\u00e7\u00f5es<\/li>\n\n\n\n<li>o trabalho sobre as diferentes dimens\u00f5es da identidade<\/li>\n\n\n\n<li>o trabalho sobre a coer\u00eancia e o sentido das situa\u00e7\u00f5es vividas<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>No conjunto mais amplo de <strong>diferentes interven\u00e7\u00f5es preventivas e terap\u00eauticas<\/strong> que poder\u00e3o ser mobilizadas, ser\u00e1 tamb\u00e9m pertinente considerar a oportunidade e a adequa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de media\u00e7\u00e3o, nomeadamente entre:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>duas l\u00ednguas<\/li>\n\n\n\n<li>dois universos culturais<\/li>\n\n\n\n<li>&nbsp;um \u201cantes e um depois\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>outro lugar e outra maneira.<\/li>\n\n\n\n<li>o interior e o exterior da PESSOA,<\/li>\n\n\n\n<li>entre o inconsciente e o consciente,<\/li>\n\n\n\n<li>entre o que \u00e9 dito e n\u00e3o \u00e9 dito,<\/li>\n\n\n\n<li>entre o que transparece e o que \u00e9 mais subtil.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A <strong>interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica em sa\u00fade mental<\/strong> procura restaurar a capacidade de tornar coerente o que ficou ca\u00f3tico ou fragmentado conferindo espa\u00e7o e tempo para que a pessoa prossiga, para que \u201ca cat\u00e1strofe\u201d (a situa\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o) e os sofrimentos causados por ela sejam superados, ou, pelo menos suport\u00e1veis. \u00c9 necess\u00e1rio que essa pessoa possa abrir-se ao novo espa\u00e7o de vida, \u00e0 sociedade de acolhimento e construir v\u00ednculos significativos com o meio social, por meio do trabalho, da rede de rela\u00e7\u00f5es sociais, da perman\u00eancia dos contactos com os compatriotas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sublinha-se a import\u00e2ncia <strong>da repara\u00e7\u00e3o<\/strong>, para que a recupera\u00e7\u00e3o seja completa e poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O ressentimento e a atitude reivindicadora, t\u00e3o frequentemente observados como <strong>express\u00e3o de sofrimento<\/strong>, tendem quando criadas condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, a apaziguar-se.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 diferentes formas de compreens\u00e3o e diferentes significados das doen\u00e7as em culturas diferentes.<\/strong> <strong>Os profissionais devem escolher o modelo de interven\u00e7\u00e3o que permita aos clientes a compreens\u00e3o do seu pr\u00f3prio problema.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1108\" width=\"352\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2.png 750w, https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Geralmente o processo <strong>de integra\u00e7\u00e3o<\/strong> ocorre entre duas culturas quando a decis\u00e3o \u00e9 identificar-se com e exibir as caracter\u00edsticas tanto da sua cultura original com a cultura predominante do pa\u00eds de chegada. Todavia, <strong>a separa\u00e7\u00e3o<\/strong> ocorre quando o imigrante ret\u00e9m a sua identidade cultural original e n\u00e3o quer adotar a cultura predominante do pa\u00eds em que vive.&nbsp; Volunt\u00e1ria ou involuntariamente?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voluntariamente o indiv\u00edduo realiza uma separa\u00e7\u00e3o da nova cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a estrat\u00e9gia \u00e9 imposta ao indiv\u00edduo pela cultura predominante conduz \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o da pessoa imigrante do n\u00facleo da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o <strong>de marginaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 de pouco interesse identificar-se com ou desprezar a cultura original ou a nova cultura. No fundo, o indiv\u00edduo vive \u00e0 margem das duas culturas. O indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 aceite ou tolerado na cultura predominante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Etnocentrismo:<\/strong> A tend\u00eancia para como seres humanos considerarmos a nossa pr\u00f3pria cultura como a melhor. Os profissionais de sa\u00fade (podem ver a sua pr\u00f3pria realidade como a \u00fanica verdadeira ou com valor e perdem de vista a perspetiva do cliente).<\/p>\n\n\n\n<p>Funchal, 6 maio 2025<\/p>\n\n\n\n<p>Isabel Fragoeiro, PhD em Sa\u00fade Mental<\/p>\n\n\n\n<p>Coordenadora do ORSMM<\/p>\n\n\n\n<p>Professora Coordenadora \u2013 Universidade da Madeira, Escola Superior de Sa\u00fade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Alguns deslocam-se por op\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, outros, por\u00e9m, s\u00e3o compelidos a deixar os seus.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1104,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100"}],"collection":[{"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1100"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1109,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100\/revisions\/1109"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/orsmmadeira.uma.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}